sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A tal revolta involuntária

Certo dia li uma frase da Clarisse Lispector: “em uma terra de morenos, ser ruivo era revolta involuntária”. Foi a poesia que me enfeitiçou daquela vez, hoje já percebo algo além.
Sentada no meu lugar no ônibus, avistava mil faces, todas elas esquecidas no instante seguinte. Todas pareciam iguais, faces do anonimato.
Até que me deparo com uma ruiva. Ruiva legítima, daquelas altas, fortes e cheia de sardas, Para onde quer que eu olhasse uma explosão de sardas, rosto, pescoço, braços, pernas. A pele era quase um único tom avermelhado.
E os olhos verdes... Sempre assustados, envergonhados, como se fosse impossível se esconder. E era.
Não sei sobre os outros tantos passageiros do ônibus, mas sempre que meus olhos buscavam algo para ver, era para a ruiva que eles se voltavam inevitavelmente.
Tenho minhas dúvidas sobre a que tipo de revolta Clarisse se referia, mas é inegável a incapacidade de se esconder um ruivo. Tudo te acusa e todos são testemunhas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O trem que não era o chinês

Mesmo antes de colocar os dois pés dentro do vagão do metrô, já se pôs a conversar. Não era bem uma conversa, afinal o senhor estava sozinho, foi um comentário jogado na ar, a espera de uma resposta.

A resposta veio, mas só depois que todos que estavam próximos olharam em volta a procura de um possível interlocutor. É, o homem estava definitivamente sozinho. Meu pai acabou respondendo com um aceno de cabeça. Foi o suficiente para que eçe se sentasse na nossa frente e começasse a conversar para valer.

Reclamava da demora. “Você viu o trem chinês que chega a 500 km/h? Saiu hoje no jornal... A gente chegaria à República em segundos!”. E se apegou a questão da velocidade. “No Jornada nas Estrelas, a Interprise andava na velocidade de dobra... Eu queria ter uma miniatura da Interprise, mas é muito cara”.

A partir desse ponto, as referências já não me eram mais familiares. Começou a listra as miniaturas de aviões de guerra alemães que tinha e a dificuldade que foi montá-las. Mas meu entendia tudo, fazia comentários e perguntas.

Por um segundo imaginei aquele senhor como um general nazista fugido. No segundo posterior, era um militar da nossa própria ditadura...

Como se lesse meus pensamentos, disse “não sou alemão, sou italiano!”.

Nesse momento o metrô chegou a estação República, destino tanto meu como do italiano tagarela.

“É claro que ele não era alemão, falando daquele jeito...” – esse foi o comentário final do meu pai.

Para mim sobrou a sensação de que algo único tinha acabado de acontecer e a certeza que o mundo seria muito mais monótono se aquele trem fosse tão rápido quanto o chinês.

domingo, 20 de novembro de 2011

Você acredita na grande mídia?

Você não acredita em Papai Noel? Mas naquilo que você vê nos jornais você acredita, né? E se eu te falasse que um é tão fajuto quanto o outro?

A informação faz toda a diferença, a partir dela você pensa e toma um posicionamento. Você usa as informações para embasar sua argumentação, você discute com seu colega defendendo cegamente aquilo. Mas nem todas as informações são confiáveis, coleguinha. Não podemos acreditar em tudo que lemos por aí nos jornais.

Uma coisa é dizer que estudantes da USP lutam pelo seu direito de fumar maconha, outra bem diferente é dizer que os alunos lutam contra os abusos cometidos pela PM. E para aqueles que estão vendo tudo a distancia, para aqueles que a única opção é acreditar na grande mídia, essas informações distorcidas são a única verdade.

Assistir a mídia tendenciosa destruir seu próprio caráter em horário nobre é coisa para os poucos que sentem na pele a injustiça das coberturas jornalísticas, que são chamados de minoria truculenta, de maconheiros, de filinhos de papai mimados, enquanto sentem suas vidas sendo reviradas pelo autoritarismo de uns poucos políticos antidemocráticos.

Se você se sente bem sentado na sua poltrona, vomitando uns poucos comentários que não fazem a menor diferença, tudo bem! Mas aqui, na USP, milhares de estudantes estão dispostos a conversar, a debater e a achar uma solução democrática.

E não venha apontando esse dedo na nossa cara se for para cuspir alguma dessas informaçõezinhas que você anda lendo por aí.

Desculpa, mas é você quem está sendo enganado!